Trazendo Deus para o Cotidiano

Como um guerreiro associa a necessidade de esforço às conquistas; como um comerciante identifica uma boa possibilidade de negócio nas oportunidades que a vida apresenta; o estudante de vedanta busca a capacidade de reverenciar a Ordem Cósmica em todos os objetos e situações com que tem contato.

O estudo, pouco a pouco, permite-nos perceber nossa insignificância no contexto absoluto, quando temos nossas expectativas frustradas. Da mesma forma, frente a um sucesso, inicia-se a percepção de que não passamos de meros operadores de bençãos concedidas por uma perfeita trama cósmica, que teve que conspirar em prol de tal acontecimento.

O Conhecimento funciona como lentes, que nos tornam capazes de enxergar a substância básica de tudo que faz parte desse mundo. A repetição mental dessa “visão”(entendimento), que destrincha as diferentes formas, nos levando sempre ao mesmo retrato final: o Divino, simultaneamente, como as causas inteligente e material de todo o universo, traz relaxamento…

Afinal, se eu e o mundo, com todos os nossos “problemas” somos, agora mesmo, essencialmente (na matéria-prima que nos faz existir), aquilo que é tudo isso (Deus); portanto, não há nada que precise ser mudado ou conquistado. Já somos, indivíduo e universo, aquilo que deveríamos ser, estamos onde deveríamos estar.  O que mudar em nós, daqui em diante, só servirá para que esse entendimento não se perca no dia-a-dia.

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Eba!!! Somos todos doentes terminais…

Passamos a vida toda procurando intensamente uma poção da imortalidade, capaz de nos proteger das rugas do tempo e de nos fortalecer para a guerra da acumulação, iludindo-nos a ponto de “esquecer” que até a nossa própria vida terá um fim.

A lógica humana, amparada pela lei universal da causa e do efeito, nos compele à conclusão de que a possibilidade de estarmos aqui e agora vem atrelada a um motivo para essa existência. Há realmente essa ânsia em todos os corações. Um sentimento que se manifesta de diferentes maneiras entre as pessoas, mas que se faz sempre presente em todos.

O problema não está em perceber essa necessidade por respostas e ir atrás de satisfazê-la. Esse é um comportamento natural que desde bebês, amparados pelo instinto de sobrevivência, procuramos, sem abrir os olhos completamente, o seio materno que nos alimentará. O cerne da questão reside em não atentarmos para o fato de que a causa para a formação dessa individualidade é, obviamente, anterior a esse indivíduo. Portanto, o seu conhecimento não será proporcionado por experiências tardias geradas por uma personalidade.

Com o pensamento de que posso resolver uma questão anterior a esse corpo e essa mente, que temporariamente faço uso, através das interações que eles nos proporcionam, saímos imitando o que outras pessoas fazem há gerações, sem obter o sucesso desejado. Assim, pelo menos, estaremos na média.

Tanto o corpo quanto a mente serão muito úteis para desvendarmos o “enigma” da vida. Temos que cuidar muito bem dessas ferramentas, dessas bênçãos que o universo nos proporcionou, para cumprirmos o objetivo existencial. O processo, necessariamente, passará pela conquista de uma intimidade com as limitações relativas que eles apresentam e pelo aprimoramento que, tangencialmente, possa acometê-los.

Não podemos deixá-los ao relento da vida, muito menos torná-los as joias da humanidade. Temos que atuar com a medição de uma balança de precisão na dosagem da atenção para otimizar seus funcionamentos e para satisfazê-los.

Os modelos sociais estabelecem os padrões de comportamento que devemos atender, infiltrando-os nos nossos pensamentos por conceitos de corpo perfeito e de mente competitiva que devemos desenvolver. Hipnotizados, perdemos o controle sobre o verdadeiro objetivo e passamos a buscar essa perfeição impossível de maneira desesperada, até o fim da vida. Não devemos nos preocupar, o universo é perfeito! Alguma hora ele nos empresta outro corpo e outra mente para ver se não caímos na mesma armadilha.

Uma vez nosso professor Jonas apresentou a seguinte hipótese: imaginemos uma pessoa que vai ao médico saber a causa de uma enfermidade. Lá, ela recebe a notícia devastadora de que seus dias de vida estão contados, devido a uma doença muito rara e aguda, sendo estabelecido até um prazo para que a morte chegue (três meses, no máximo). Qualquer um ficaria triste e preocupado com a notícia, podendo reagir de duas maneiras: simplesmente deitar e esperar o dia fatídico. Ok! É direito de cada um e apenas respeitaríamos. Há também a possibilidade daquele que recebe a notícia simplesmente querer aproveitar da melhor maneira possível o que ainda tem para viver.

Esse segundo desfecho merece a nossa atenção pois ilustra bem o que é o processo de conhecimento apresentado pela Tradição Védica. Quando o doente terminal recebe a notícia e resolve viver intensamente os dias que lhe restam, ele não está preocupado em melhorar os defeitos da sua personalidade, vai apenas viver aquilo que lhe for apresentado por inteiro, fato a fato, sem objetivar um resultado específico.

Pois bem! Sinto ter que informar-lhes: todos nós nascemos, logo todos morreremos. Portanto, SOMOS TODOS DOENTES TERMINAIS. Abre-se então um espaço nas nossas mentes para vivermos como aquele personagem descrito há dois parágrafos. A única diferença é que o médico não nos disse quanto tempo ainda nos resta.

Sabendo disso, como na hipótese acima, só temos duas opções: desperdiçamos esse corpo e essa mente que Deus nos deu repetindo o que todo mundo faz sem nem sequer questionar se é bom ou ruim para nós; ou, aproveito-os, com todos os seus defeitos que julgo possuírem, e os utilizo para viver, por inteiro, cada situação que surgir na minha vida daqui para frente. Esse é o convite!!!

O autoconhecimento vem mostrar, em suas entrelinhas, que o processo pode trazer o aperfeiçoamento físico e mental, mas o ponto chave não é esse. Ele nos conduz à conquista de uma maior intimidade com as limitações do próprio corpo e da própria mente, retirando nosso foco da busca por uma perfeição inatingível. Redirecionando-o para uma maneira de se viver bem e feliz dentro de toda essa imperfeição relativa, à espera daquele dia que os médicos não puderam precisar.

Sraddha: a chave para se abrir a porta do conhecimento

Na busca espiritual, deparamo-nos com muitas portas. Em algumas, batemos e ninguém atende; em outras, já encontramos tudo escancarado, mas algo nos impede de entrar; outras vezes, já entramos com vontade de sair. Até que em algum momento dessa jornada, se abençoados por bons karmas, somos empurrados porta adentro por um sentimento de confiança que nos impulsiona. O coração acelera, o intelecto não julga, apenas confirma os sentimentos e passamos a contar com a companhia constante de uma certeza íntima, que cresce com o contato com o conhecimento, nos inspirando e gerando uma atitude sincera para o caminho que se apresenta. Sraddha se faz presente!

No meu caso, não posso dizer que entrei em portas erradas, pois todos os grupos e lugares por onde andei colaboraram de alguma forma para que chegasse na porta que me introduziu na vida de yoga. Contudo, em qualquer via de autoconhecimento, chega uma hora em que você passa a lidar com assuntos que estão fora do âmbito dos sentidos e da mente. É o momento crítico, pois, para se continuar, só há duas possibilidades: ou você acredita em tudo cegamente e apenas tem fé; ou você abre seu coração, permitindo que o intelecto averigue logicamente tudo que se passa, e vivencia aquilo que se está sendo dito.

Essa segunda hipótese é chamada, pelos Vedas, de Sraddha. Indica o surgimento de uma confiança – no método, no professor e no assunto -, que se estabelece a partir da vivência dos ensinamentos e que resulta numa segurança interna que nos permite baixar a guarda e seguir em frente na proposta de um novo estilo de vida. O intelecto continua ativo, participando das escolhas de forma construtiva. Isto é, sem aquela necessidade de botar em cheque quem ensina e/ou o quê é ensinado. A mente assume uma atitude humilde de contentamento pelo simples fato de se ver capaz de ratificar, tendo por base a lógica da existência humana, o conhecimento passado.

No meu caso, essa postura de entrega consciente e devoção à Tradição ocorreu em etapas, obedecendo sempre o fluxo: compreender através da mente; assentar esse entendimento no coração e experimentá-lo no dia-a-dia. Assim, pude perceber que há uma relação direta entre a intimidade que se vai adquirindo com o assunto e o relaxamento que a acompanha. Em outras palavras, conforme meu contato com o conteúdo estudado ia aumentando, aumentava a minha disponibilidade mental para o próprio estudo. Não poderia ser diferente, pois estamos falando de uma Tradição de Conhecimento e não de um mecanismo de aceitação. Hoje entendo que precisava desse tempo para que meu ego fosse, pouco a pouco, cedendo e meu coração se abrisse da forma necessária para a acomodação dos ensinamentos.

Há cerca de sete anos, estava numa academia de musculação quando decidi fazer uma aula de Yoga. Era tudo muito diferente. Por que continuar com aquela “maluquice”? E numa breve análise (tinha que ser breve mesmo, pois não conhecia nada daquilo), percebi que me sentia muito bem e meu coração sussurrava ao fundo: deixa rolar que vai dar tudo certo. Alguns chamariam de bom senso, mas como ter algum senso sobre algo tão desconhecido. Era apenas um bem-estar que até então não havia vivenciado, uma leveza que se prolongava além das aulas.

O tempo foi passando e senti a necessidade de entender tudo aquilo que estava sentindo. Essa busca trouxe a confirmação de algo que, infelizmente, nunca havia sido falado diretamente nas aulas, mas era o que eu sentia. Yoga utiliza o corpo como instrumento para chegar à mente. Eu sempre tive a convicção de que aquelas posturas, respirações e meditações não se esgotavam nelas mesmas. Junto com esta descoberta, houve uma renovação daquele sentimento que me intuía a continuar, a me entregar de peito aberto ao que estava por vir. Nesse momento, ainda não me sentia dentro de uma tradição de ensinamento propriamente dita, mas observando as coisas boas vivenciadas e o reflexo dessas experiências no meu cotidiano, crescia dentro de mim uma reverência a tudo aquilo. Ainda não possuía um entendimento claro, mas prevalecia já uma sensação de contato com Deus durante as práticas.

Saí mais uma vez atrás de explicações sobre essa sensação que brotava no meu coração. Qual seria a relação de tudo aquilo com Deus? Se em outras oportunidades, dentro da minha pequena vivência em Yoga, as necessidades que surgiram foram atendidas, espontaneamente, logo a diante. Então, continuei confiante de que tudo ia dar certo. Era o que eu sentia! E como não me ocorria nenhum pensamento capaz de desdizer os sentimentos, só restava seguir em frente…

Foi quando conheci Vedanta e, mais uma vez, esse caminho naturalmente ratificava algo que uma voz dizia baixinho lá de dentro do meu peito. Compreendi que todas aquelas práticas tinham como objetivo final qualificar meu corpo e minha mente para um método de estudo que me levaria ao entendimento sobre o que é Deus. Se antes havia uma voz íntima que me orientava: vai em frente, deixa rolar. Agora era mais forte. Não tinha mais volta. Já me sentia inserido numa Tradição de Ensinamento, embora meu intelecto e meu ego ainda falseassem.

Nesse ponto, vale a pena dar uma parada e expor alguns pensamentos que vinham testar a certeza de que estava no caminho certo. Foram vários, mas vou relatar aqueles mais frequentes: apesar de tudo de bom que sentia naquelas aulas de Yoga na academia, olhava para a professora e achava que ela fazia muita pose; no curso de formação, meu professor sabia do que estava falando, mas fazia questão de criar um ar místico que impedia que eu me conectasse; já nas aulas de Vedanta, apesar de ver com os próprios olhos e sentir o peso de uma a linhagem de mestres, gerações de estudo, olhava para a professora buscando os defeitos da sua personalidade, muitas vezes tentei incompatibilizá-la com aquilo tudo que ela dizia com tanta propriedade. Definitivamente, embora já tivesse escutado falar sobre Sraddha, meu ego não permitia que entendesse, completamente, o seu significado e a sua importância para que a porta se abrisse definitivamente. Só me resta pedir desculpas sinceras a esses professores e agradecer a Deus por permitir que, mesmo no meio de todo esse autoboicote, a confiança preponderasse dentro de mim, mantendo-me no meu caminho.

Eu via e sentia que tudo era muito real/palpável; mas, com esse comportamento, eu mesmo criava, inconscientemente, uma barreira que limitava meu contato com o conhecimento. Não fazia com dolo, era um amadurecimento que tinha que conquistar e, além do mais, não escolhemos o momento em que a confiança vai se consolidar. Quando chega a hora certa, nosso ego dobra-se em reverência humilde e consciente ao conhecimento e à pessoa que é capaz de transmiti-lo da maneira que precisamos. Não há mais espaço para pensamentos que atrapalhem a sintonia que se estabelece, não existem mais julgamentos acerca do professor e, consequentemente, das suas palavras. Resta apenas uma gratidão impagável àquele que nos empresta sua mente, para que vivenciemos espasmos da plenitude que buscamos, um dia, entender definitivamente.

Sraddha é uma confiança, que se estabelece em relação ao Professor e ao Conhecimento, de maneira progressiva, não imediata. Ela se forma devido a capacidade do buscador de ir confirmando-a, pouco a pouco, através do contato com o método de ensinamento. Quando instalada, não tem mais volta. Uma convicção fixa-se no coração daquele que se expõe ao processo, transformando sua atitude. Ele, então, solta as suas armas e passa a desfrutar verdadeiramente de toda a beleza dessa Tradição. A porta certa foi aberta! Eu entrei… dá para ver lá de dentro que o caminho é longo, porém não resta mais receio sobre o que está por vir. Obrigado, Jonas Masetti!

Busca espiritual: a rota para o prazer supremo

A busca pelo prazer, através dos excessos e das satisfações experimentados, leva o indivíduo a um amadurecimento emocional que é indispensável para que se inicie uma busca espiritual. Ao mesmo tempo, essa jornada de conhecimento desemboca no maior dos prazeres que a existência humana pode propiciar: o entendimento sobre a realidade do sujeito que é livre de limitações.

As situações prazerosas proporcionam os primeiros contatos com nossa essência de felicidade. Elas são capazes de nos libertar momentaneamente do vai-e-vem de pensamentos que passam todo o tempo pela nossa mente, impedindo-nos de relaxar. Lembro uma situação em que devia ter uns doze anos e tinha ido muito mal numa prova do colégio. Estava muito triste, pois sabia que as consequências do meu desempenho não iam ser boas. Voltava pela praia, quando me deparei com um mar clássico (perfeito para se surfar). Poucas vezes presenciei condições de ondas como aquelas. De repente, nem pensava mais naquela prova, (Que prova?!) apenas parei admirei o que estava acontecendo e um êxtase tomou conta da minha mente. Corri para casa, peguei a prancha e voltei para pegar onda. A felicidade durou algumas horas até que um vento forte começou a desfazer aquele cenário perfeito e logo pensei: amanhã tenho outra prova, vou acabar me ferrando de novo. E tudo voltou ao normal…

Momentos como esses são comuns na vida de todos e intuitivamente entendemos que a busca por uma situação que nos gere satisfação pode tirar nosso foco de pensamentos ruins que nos atormentam. Existe algo muito importante aí para que iniciemos um caminho de autoconhecimento: eu percebo que consigo sentir felicidade, mesmo no meio de um momento ruim! Essa constatação possui o lado negativo que é o de associarmos a felicidade às ações que iremos praticar para nos distrair (no meu caso, sempre que estava com problemas corria para o mar). Apenas mais uma forma de manifestação da nossa ignorância que o estudo há de dar conta. Contudo, há uma confirmação do principal ensinamento trazido pela Tradição Védica, de que eu sou a fonte da minha felicidade. Sem essa vivência proporcionada espontaneamente por experiências inesperadas de prazer, teríamos apenas palavras soltas que me exigiriam uma aceitação cega, apenas mais uma promessa de eliminação do sofrimento.

Historicamente, os discursos religiosos foram distanciando esses conceitos de vida espiritual e de prazer, chegando ao extremismo de professarem a incompatibilidade entre um e outro. Talvez por erro humano de interpretação dos ensinamentos, talvez por ser uma necessidade específica para uma determinada sociedade em que o prazer estivesse supervalorizado.

Enfim, muitas podem ter sido as causas, mas basta uma simples reflexão para se perceber que as situações de deleite criam um ambiente fértil para o estudo. Para exemplificar, vamos pegar aquele que é considerado, pela maioria das correntes religiosas, como a ovelha negra dos  prazeres: o desejo sexual, e analisá-lo sob a ótica de uma vida de Yoga. Como qualquer desejo, exigirá um esforço pessoal gerando movimento interno e disposição mental que são atributos indispensáveis para uma busca espiritual. Da mesma forma, o clímax do ato sexual (considerando-se como tal o momento do orgasmo) é um grande exercício de preparo mental, só sendo atingido a partir do foco naquele assunto. Pronto, temos tudo junto num único prazer: atitude consciente, atenção e foco. É ou não é Yoga? O que vai responder essa pergunta é o valor que se dá a esse desejo (o discernimento que faltava). Aí, Vedanta vem nos ensinar que não há desejo por prazer que esteja errado. Todos eles são bons desde que não sejam supervalorizados, sendo postos à frente do desejo pelo conhecimento do propósito desta vida.

A própria busca espiritual nada mais é do que a busca por prazer camuflada pela necessidade de eliminação de todo sofrimento. Isto é, a busca pelo maior dos prazeres, o prazer de ser/estar sempre feliz, consequentemente, livre da prisão corpo/mente, livre da necessidade de estar sempre buscando novas ações que me tragam alegria, livre dos próprios julgamentos e das outras pessoas. Em outras palavras, a jornada de autoconhecimento é a busca pelo prazer de ser capaz de reconhecer a felicidade plena que já está contida na essência do Ser. Será que existe satisfação maior do que essa?

Entendendo-se essa relação direta entre a busca pelo prazer e a busca espiritual, surge o questionamento acerca de determinadas práticas espirituais, prescritas no ambiente de Yoga, que nos privam de determinados desejos que trazem prazer. Recordo-me de um caso que uma professora contou numa aula de Vedanta. Ela estava submetendo-se a uma restrição alimentar, na qual já estava há cerca de três meses sem comer nada com açúcar. Nenhum docinho, nada. Ela disse que realmente acreditava que isso seria importante para seu amadurecimento espiritual. Até que, ainda na dieta, foi dormir na casa de um amigo e acordou no meio da madrugada para beber água. Na sua casa era fácil, a tentação não estava lá. Pois bem, quando abriu a geladeira do amigo, no meio da madrugada, ninguém olhando, deparou-se com doces de todos os tipos. Tinha ocorrido uma festa em que ela havia resistido bravamente sem comer nada. Ela nem pensou, atacou tudo! Relatou que sentou no chão que nem criança e só parou de comer quando foi flagrada por alguém que chegou à cozinha. Por mais que a sua intenção fosse nobre, não havia nada de espiritual naquela conduta. Havia uma grande crença infundada de que se abrisse mão de algo muito prazeroso ela iria ser recompensada por uma benção espiritual. Engraçado que quando ela contou esse caso, eu seguia umas orientações radicais de alimentação e prontamente vesti a carapuça.

Da mesma forma que quando os prazeres são vivenciados de forma atenta geram conhecimento, a restrição indiscriminada das situações que nos trazem contentamento pode representar um retrocesso no caminho espiritual, pois o autoconhecimento fica atrelado ao sofrimento, que foi o motivo que deu início a todo o processo. Isso cria uma sensação de se estar num círculo vicioso, sem saída. Podendo até nos levar a desistência.

O cerne da questão reside no fato de que em grande parte das vezes chegamos para essa viagem de conhecimento com uma mente que não está completamente apta. Nesses casos, algumas privações, orientadas por uma pessoa qualificada, com objetivos estabelecidos e com a duração adequada podem ajudar. Essas disciplinas podem ser capazes de mostrar para a mente que ela pode se submeter à privação de qualquer desejo por prazer, exceto à do desejo pelo entendimento sobre a realidade do universo. Esse sim deve ser sempre identificado como o prazer dos prazeres.

O caminho de autoconhecimento não nos apresentará só flores. Em algum momento, teremos que enfrentar nossos próprios fantasmas e aprender a conviver com eles. Mas não podemos nunca esquecer que foi através dos prazeres experimentados que comprovamos a insuficiência das ações frente a nossa busca fundamental. Além disso, foram as vivências de momentos inocentes de prazer que nos permitiram um primeiro contato com a nossa fonte interna de felicidade, gerando no coração do buscador a confiança indispensável para que o ensinamento siga o seu fluxo tradicional. E, finalmente, temos sempre que lembrar que o caminho espiritual representa o busca pelo maior dos prazeres, portanto, a busca consciente pelo prazer será sempre uma boa referência.

Da Religiosidade para a Espiritualidade: um salto para a Liberdade

Tanto a religiosidade, quanto a espiritualidade tratam de assuntos relacionados ao divino. Ambas apresentam-nos maneiras de se viver que visam atender à necessidade humana básica de busca pela felicidade plena. Porém, há um ponto de separação entre elas que é estabelecido pelo alcance de uma maturidade espiritual que nos possibilita tratar de forma discriminativa, objetiva e livre de temas como o propósito da vida, Deus, a morte.

Não me lembro, ao certo do momento; mas, inicialmente, ficava tentando imaginar como seria Deus. Como poderia encontrá-lo e reconhecê-lo. Era muito novo, portanto, recorri aos meus familiares. Eles automaticamente apresentaram-me a Igreja Católica, da mesma forma que seus pais haviam feito. A figura de Jesus Cristo teve papel fundamental, pois fica muito mais fácil para uma criança agradecer e pedir, através de orações, para uma imagem semelhante.

Foram anos de muito conforto, pela simples ideia de que existia alguém, muito mais forte e poderoso do que eu, para me proteger. Naveguei pelas diferentes doutrinas religiosas que se baseiam nos ensinamentos cristãos. Igreja Católica, Igreja evangélica e Espiritismo formaram minha base espiritual. As migrações vinham quando me deparava com algum doutrinamento que me era apresentado sem explicações lógicas ou que não me permitiam vivenciá-los para confirmá-los.

Por sorte, minha vozinha, que continua viva, já havia passado por momentos similares e, apesar de saber todas as histórias da Bíblia, usava um cordão muito bonito chamado ohikari e estava sempre disposta a erguer sua mão para ministrar um johrei. A reza era (na verdade ainda é) forte, mas o que marcou foram as conversas sobre Deus. Tanto foi que lá fui eu, mais uma vez, mudar de religião para tentar achar as respostas que há muito procurava. Após a outorga, recebi meu ohikari e passei a ser reconhecido pelos frequentadores da Igreja como messiânico. Não era uma religião tão comum quanto às outras, havia de possuir algum segredo místico que me salvasse…

A essa altura, era uma “mistureba” muito doida: acordava agradecendo Jesus por mais um dia de vida; pedia proteção aos espíritos amigos e ao anjo da guarda na saída de casa para o trabalho; ministrava johrei nos amigos do trabalho que passavam mal; assistia a programas da Igreja Evangélica (adoro a parte dos ensinamentos) em noites de falta de sono e, na hora de dormir, agradecia a Deus pela saúde e proteção recebidas nesse dia que se encerrava. No meu íntimo, esse “mix” de religiosidade era muito bom! Todos esses grupos religiosos tocavam meu coração de alguma forma, mas não me identificava totalmente com nenhum deles. É como se cada um ensinasse uma parte daquilo que seria bom para mim.

Na prática não era tão simples assim. Eu não falava no centro espírita que ministrava johrei; não sabia se era correto invocar na oração introdutória ao johrei os espíritos amigos para me auxiliarem. Ouvia na TV a crítica à adoração de imagens na pregação do pastor, olhando para o São José que tinha na minha mesinha de cabeceira. O fato das minhas necessidades não serem levadas em consideração, associado à pressão por aceitação de dogmas que não me faziam sentido, quase me afastaram da minha busca espiritual.

Elaborei uma lista com pontos favoráveis e desfavoráveis e decidi me aprofundar naquela religião que se mostrou mais adequada. Como se espiritualidade pudesse ser mensurada por prós e contras. Dediquei-me, passei por cima de ensinamentos que não pareciam estarem sendo ditos para mim, mas não teve jeito. Sentia-me reprimido, com raiva por ter de deixar de fazer coisas que me faziam bem só porque não estavam prescritas por aquele grupo espiritual que frequentava no momento. Eu sentia que algo estava incompleto, tinha que haver uma solução para que eu pudesse seguir em frente.

Na verdade, a resposta já estava no meu coração, ou melhor: na minha mente. Contudo, as emoções e as ansiedades que vivia não me deixavam ver o que já sentia no coração. Eu vinha pela estrada (busca espiritual). Até que me deparei com um buraco enorme (ignorância sobre limitação da religiosidade e dos grupos espirituais), que precisava transpor para continuar a viagem. Sozinho eu não conseguiria pular aquele buraco gigante. Depois de muito procurar, avistei uma vara de bambu (Vedanta), forte e flexível, que poderia me impulsionar para o outro lado. Agarrei-a numa das extremidades (o professor que me estendeu a mão), finquei a outra no centro do buraco e me lancei, segurando-a até que fosse a hora de soltá-la. Caí na outra margem, livre (de preconceitos, de dogmas) para continuar a jornada.

Esse ponto, em que nosso próprio conjunto de vivências gera uma compreensão de que não há certo ou errado para práticas espirituais (há apenas uma adequação às necessidades de cada um), marca o salto da religiosidade para a espiritualidade. As amarras geradas pelos dogmas religiosos se desfazem, permitindo que o indivíduo se relacione livremente com Deus. A espiritualidade, então, aflora! Uma vez conquistada essa liberdade, Vedanta pode atuar e nos mostrar que até mesmo essas ações, por mais sagradas que sejam, por estarem condicionadas ao tempo e espaço, não serão capazes de nos trazer a felicidade plena. E voltamos a caminhar na estrada…

Verdadeiramente, não estamos no controle da vida

Em setembro de 2012, havia acabado de mudar de setor no trabalho, quando foi deflagrada uma greve nacional dos policiais federais. Este movimento viria a ficar marcado na história como a maior paralisação da categoria, com duração de sessenta e nove dias.

A pesar de concordar com as reivindicações, exercia uma função de extrema responsabilidade, em que meu nome ficava diretamente vinculado à justiça federal e, periodicamente, eu tinha que apresentar relatórios sobre o desenrolar das atividades. Com isso, continuei trabalhando normalmente até encerrar o ciclo que estava em andamento. Entreguei um relatório parcial e comuniquei à minha chefia imediata que a partir dali exerceria o meu direito constitucional de greve e, consequentemente, que fosse providenciada a minha substituição.

Passados doze dias de afastamento do trabalho, encontrei com o meu chefe andando pelos corredores da superintendência (a concentração do movimento ocorria na porta desta instituição) e tivemos uma conversa informal em que ele dizia que o processo estaria voltando da justiça com o indicativo de continuação e que seria bom que eu continuasse à frente do trabalho. Expliquei-o que continuava voluntário, desde que ele comunicasse formalmente a comissão de greve sobre a necessidade do meu retorno ao trabalho. Desta forma, retornaria às atividades sem ser taxado de “pelego” pelos colegas. O ambiente naquele momento era muito tenso e confesso que tive medo de ser julgado negativamente por meus pares, mesmo tendo vontade de continuar a tarefa que havia iniciado. Então, apertamos as mãos, como sempre, e fiquei esperando o resultado de nossa conversa.

E ele veio … cerca de um ano depois, estava na natação do meu filho mais velho, quando meu telefone começou a tocar como nunca. Todos ofereciam-se para ajudar e diziam palavras de apoio. Não conseguia entender direito o que estava acontecendo, até que um amigo pediu para eu acessar o site do Ministério Público Federal. Havia uma notícia em destaque na qual eu figurava como um criminoso. Estava sendo acusado de abandono de função por mais de trinta dias, cuja pena seria a perda da função pública.

Foi muito ruim, senti vontade de me esconder, como uma criança assustada que corre para debaixo do cobertor com medo do monstro de dentro do armário. Passou um filme na minha cabeça em que me via sem ter como alimentar e cuidar da minha família. Foi tão forte que pela primeira vez na vida tive uma crise de hipertensão, indo parar no posto médico do clube. Visualizava minha esposa e meus filhos (há época o Felipinho tinha um mês de vida) e já tentava criar possibilidades para um novo trabalho. Mesmo sabendo que não havia feito nada de errado, num primeiro momento, estava muito inseguro e pessimista. Encontrava-me perdido num furacão de pensamentos que se alternavam e não me permitiam chegar a uma conclusão. Ora passavam as consequências ruins que podiam vir, ora planejava vingança ao meu chefe e ainda vinham os palpites que chegavam de todos os lados.

Esse pesadelo arrastou-se por cerca de um ano, nossa justiça é lenta demais! Foi um período de grande ansiedade. Não era um sentimento contínuo, pois tinha um recém-nascido em casa que me fazia esquecer temporariamente daquele momento ruim. Mas, quando a lembrança do fato voltava, sentia uma dor aguda, daquelas de quando levamos um susto muito forte, gerado por algo muito ruim e inesperado. Começava com uma queimação na barriga e ia subindo, até chegar no coração, como uma pontada fininha e profunda.

Estava muito inseguro e precisava da opinião das pessoas mais próximas. Contava a estória com todos os seus detalhes para minha mulher, mãe, amigos, pois esses dificilmente não me dariam a razão. A absolvição deles me acolhia e me dava forças para o outro julgamento, que decidiria meu futuro.

Passou, no final tudo deu certo! Cruzei com pessoas muito boas no meio dessa confusão até chegar na Juíza que acabou com o processo na primeira audiência. Contudo, foi um momento de grande sofrimento e, ao mesmo tempo, de superação, porque no meio de todas essas emoções tive que arrumar forças para me defender, juntando documentos e escrevendo muito. Passou …

Textos elaborados por um ALUNO de VEDANTA, que relatam seus entendimentos sobre temas da TRADIÇÃO VÉDICA, a partir dos ensinamentos que estão sendo transmitidos pelo seu PROFESSOR, durante sua jornada de AUTOCONHECIMENTO.